Naquele dia, ‘ele’ decidiu falar-nos e lá de cima, do alto do monte Canaa, perto do povoado onde vivia Pedro, ‘ele’ dirigiu-me a palavra.
- Que te enfada Miguel?
- Enfadam-me os homens – respondi – enfadam-me os homens…
- Enfada-te o que fazem?
- Não. Enfada-me o que não fazem, o que não sentem, o que não pensam.
- E é só?
- Não! Sobretudo, enfada-me que olhem o mesmo que eu, mas apenas sejam capazes de ver o que desejam.
- Mas Miguel, não vives tu entre os homens desde sempre?
- Sim.
- E desde sempre sabes que é deles a liberdade de fazer o que desejam, com o que ‘ele’ lhes deu.
- Sabes – disse por fim – é por isso que não acredito n’ele. E nem em ti.
Tuesday, August 03, 2010
Saturday, November 21, 2009
Maputo - África de Novo
Há um ano que não vinha a África. Apesar de algo renitente quando esta possibilidade começou a ganhar forma (ainda na semana da Gripe A), acabei por vir quase resignado.
Cheguei a Maputo ontem sexta feira, ainda de madrugada para horas de Lisboa, mas já quase 7 da manhã aqui. Fui recebido com uma chuva tropical intensa que ainda se mantém hoje.
Enquanto vinha do aeroporto para o escritório, com um pedacinho do vidro aberto a ver desfilar as cores e os cheiros de África, percebi o quanto estava com saudades. Se calhar a minha renitência em regressar depois de todo o meu tempo de África era causada pelo medo que tinha de me sentir de novo 'agarrado' a isto. E pelos vistos era justificado. África faz-me sentir em casa. Ainda. Continuo a sentir-me parte desta paleta de cores com combinações improváveis. Desta mistura de cheiros, destas pessoas e desta alegria.
Constatei também outra coisa. Tenho saudades de Luanda. Não há forma racional de o explicar. Tem poluição e stress e montes de gente. Em comparação com Maputo perde em quase tudo. Mas... sinto-a como a minha cidade e a ligação emocional é ainda muito grande. Como para já o futuro mais próximo passa mais por aqui que por lá. espero só conseguir rápido essa ligação emocional com esta cidade fantástica que é Maputo.
Achava que já era Europeu de coração de novo. Estava enganado.
Cheguei a Maputo ontem sexta feira, ainda de madrugada para horas de Lisboa, mas já quase 7 da manhã aqui. Fui recebido com uma chuva tropical intensa que ainda se mantém hoje.
Enquanto vinha do aeroporto para o escritório, com um pedacinho do vidro aberto a ver desfilar as cores e os cheiros de África, percebi o quanto estava com saudades. Se calhar a minha renitência em regressar depois de todo o meu tempo de África era causada pelo medo que tinha de me sentir de novo 'agarrado' a isto. E pelos vistos era justificado. África faz-me sentir em casa. Ainda. Continuo a sentir-me parte desta paleta de cores com combinações improváveis. Desta mistura de cheiros, destas pessoas e desta alegria.
Constatei também outra coisa. Tenho saudades de Luanda. Não há forma racional de o explicar. Tem poluição e stress e montes de gente. Em comparação com Maputo perde em quase tudo. Mas... sinto-a como a minha cidade e a ligação emocional é ainda muito grande. Como para já o futuro mais próximo passa mais por aqui que por lá. espero só conseguir rápido essa ligação emocional com esta cidade fantástica que é Maputo.
Achava que já era Europeu de coração de novo. Estava enganado.
Friday, November 13, 2009
Dia 5 – Quinta-feira
QUAL A SUA OPINIÃO, SÔTOR?
Acordei sem febre. Levantei-me e constatei que a cabeça parecia querer rebentar e sentia intensas dores pelo corpo. Ouch, mais um dia duro. Por outro lado a Pat está bastante melhor. Aliás, a meio da manhã disse mesmo que tinha fome, pela primeira vez na semana toda.
Durante a manhã recebi uma chamada de um amigo que estava a sentir-se adoentado e insistiu em contar-me os sintomas para saber se, na minha opinião, estaria cm gripe A. Pouco depois, a mesma conversa com um colega, desta vez pelo MSN. Foi então que me ocorreu: os gajos da linha Saúde 24, para terem menos chamadas, devem publicar os contactos de quem está doente, a ver se desviam parte das chamadas. Só pode. E a comprová-lo tive mais uma destas conversas via MSN durante a tarde.
É um cadito bizarro, mas sempre serviu para me desviar a atenção das dores de cabeça.
Hoje custou um pouco acompanhar a energia da Pat que parece estar de novo em forma.
Mas prefiro assim
Acordei sem febre. Levantei-me e constatei que a cabeça parecia querer rebentar e sentia intensas dores pelo corpo. Ouch, mais um dia duro. Por outro lado a Pat está bastante melhor. Aliás, a meio da manhã disse mesmo que tinha fome, pela primeira vez na semana toda.
Durante a manhã recebi uma chamada de um amigo que estava a sentir-se adoentado e insistiu em contar-me os sintomas para saber se, na minha opinião, estaria cm gripe A. Pouco depois, a mesma conversa com um colega, desta vez pelo MSN. Foi então que me ocorreu: os gajos da linha Saúde 24, para terem menos chamadas, devem publicar os contactos de quem está doente, a ver se desviam parte das chamadas. Só pode. E a comprová-lo tive mais uma destas conversas via MSN durante a tarde.
É um cadito bizarro, mas sempre serviu para me desviar a atenção das dores de cabeça.
Hoje custou um pouco acompanhar a energia da Pat que parece estar de novo em forma.
Mas prefiro assim
Thursday, November 12, 2009
Diário de uma Gripe A
História em primeira mão de uma semana de quarentena a dois
Dia 0 – Sábado
PREOCUPAÇÃO
Depois de jantar em casa de uns amigos a Patrícia chegou a casa meio murchinha e quando a fui deitar pareceu-me quente. Medi a temperatura e tinha 37,5º . Nada de grave, pensei. Dei-lhe 10ml de ben-u-ron e fiquei descansado.
Dia 1- Domingo
MEDO
Acordámos bem dispostos. Medi a temperatura da Pat e estava tudo em ordem. Fomos tomar o pequeno almoço à rua e levar roupa à engomadoria.
A dado ponto apercebo-me que a Pat está a ficar com tosse seca. Cada vez mais até ao ponto de ser quase constante. Sinto-a de novo quente. 38,8º afinal temos qualquer coisa. Mais anti-piréticos e ficamos fechados em casa. Embora ainda nem eu nem ela soubéssemos, começava a nossa semana de quarentena em casa.
Por esta altura decido que a mãe devia saber; ligo-lhe e partilho os meus receios. A febre desce pouco com os anti-piréticos, ela tosse mas ainda n vomitou e nem se queixa de dores. Nenhum dos dois o disse, mas H1N1 estava nas nossas mentes.
Até q ao fim da tarde, a Pat vomita a primeira vez e começa a queixar-se de dores de garganta motivadas pela tosse.
Falo com a mãe que fala com a pediatra. Foi o início de várias consultas telefónicas. A pediatra pergunta se o nariz corre. Não, nada se passa aí.
– Nesse caso - diz – os sintomas estão muito próximos de H1N1, fiquem em casa, anti-piréticos de 4 em 4 horas e vamos acompanhando isso.
Por esta altura, finalmente percebo que não devo ir trabalhar na segunda.
Dia 2 - Segunda- feira
PÂNICO
A noite foi péssima. Nem eu nem ela dormimos nada. Não só ardia em febre (sempre por volta dos 39º) como tossia e se queixava das dores que tossir lhe causava.
Pela manhã constato de novo que, aconteça o que acontecer, no máximo às 8 da manhã a Pat salta da cama. Mas estava murchinha, com os olhos encovados. Desde domingo à noite que recusa a comida e só a ‘engano’ com bolachinhas e chá preto super adoçado.
Pela falta de melhoras e mesmo agravamento, a mãe recorre de novo à pediatra. De novo nos indica estar com grande dose de certeza perante a H1N1, mas recomenda que não saíamos de casa (sobretudo, que não vamos ao consultório), excepto se quisermos ir fazr a análise, mas que para ela era indiferente nesta fase. Recomenda um xarope para aliviar a tosse que continua e continuar como até aqui.
Por esta altura começo a achar q ela não nos quer é lá no consultório. Mas tendo em conta que a Pat pode ser fonte de contágio, nem sequer me choca (muito).
É então que abro o frigorífico e constato que as provisões que um gajo que vive sozinho tem em casa, podem durar muito qd na melhor das hipóteses jantamos em casa, mas são ridiculamente insuficientes para 2 pessoas em casa full time. Do mesmo modo, os antipiréticos que tinha comprado há 6 meses e estavam quase cheios, estão a chegar ao fim.
Aceito a oferta da ex de nos trazer medicamentos e mantimentos.
À noite, para além de mais uns vómitos da Pat, eu começo a ter dores no corpo, respondendo assim à minha própria questão de quanto tempo eu me aguentaria sem contágio.
Dia 3 - Terça-feira
AFINAL ISTO PASSA
Esta noite foi menos má. Pelo menos para a Pat. Começou a descer a temperatura e a tosse reduziu imenso.
Já eu, para além de imensas dores no corpo e cabeça, estava com uma terrivelmente irritante tosse seca, que antes do fim da manhã já me causava dores na garganta.
Mas as boas notícias são que a Pat tem muito menos tosse e a febre desceu gradualmente ao longo do dia. À noite estava sem febre e já tinha outro ar, ainda que continuasse sem comer nada de jeito.
Ao longo do dia tornou-se também evidente que eu iria ter que recorrer aos mesmos medicamentos que ela; a técnica de fingir que não estava doente n estava a resultar.
Dia4 – Quarta-feira
O SEU DIPLOMA POR FAVOR
Em média esta manhã acordámos os dois assim assim. Na prática, a Pat acordou bem, sem febre ou dores e eu acordei mal. Bastante pior que ontem. Febre, dores mais intensas no corpo todo, com especial incidência na cabeça e espirros.
Se por um lado ter a Pat bem descansou toda a gente, por outro lado a experiência de estar fechado em casa a cuidar de uma criança quando mal nos conseguimos mexer, não é das mais fáceis.
Mas o dia de hoje teve experiências divertidas. Hoje começou a passar a notícia de que o RC está em casa com Gripe A. Isto suscitou alguns telefonemas e várias conversas no MSN. Acabei por constatar uma coisa. Toda a gente se recusa a acreditar que possas ter Gripe A a não ser que tenhas a análise positiva na mão. É como se fosse mais importante que o certificado de habilitações.
Um gajo concorre a um emprego de Economista, Gestor, Engenheiro Civil e ninguém quer saber do teu certificado de habilitações. Acreditam. Mas c a Gripe A, não, nada disso, meu menino. Tens o quê, Gripe A? Mas tens as análieses? Ah... então não é!
Se fosse uma coisa importante eu tinha ficado deprimido, juro. Assim, o que mais me aborreceu foram os arrepios de frio, a febre alta e as dores de corpo.
Dia 0 – Sábado
PREOCUPAÇÃO
Depois de jantar em casa de uns amigos a Patrícia chegou a casa meio murchinha e quando a fui deitar pareceu-me quente. Medi a temperatura e tinha 37,5º . Nada de grave, pensei. Dei-lhe 10ml de ben-u-ron e fiquei descansado.
Dia 1- Domingo
MEDO
Acordámos bem dispostos. Medi a temperatura da Pat e estava tudo em ordem. Fomos tomar o pequeno almoço à rua e levar roupa à engomadoria.
A dado ponto apercebo-me que a Pat está a ficar com tosse seca. Cada vez mais até ao ponto de ser quase constante. Sinto-a de novo quente. 38,8º afinal temos qualquer coisa. Mais anti-piréticos e ficamos fechados em casa. Embora ainda nem eu nem ela soubéssemos, começava a nossa semana de quarentena em casa.
Por esta altura decido que a mãe devia saber; ligo-lhe e partilho os meus receios. A febre desce pouco com os anti-piréticos, ela tosse mas ainda n vomitou e nem se queixa de dores. Nenhum dos dois o disse, mas H1N1 estava nas nossas mentes.
Até q ao fim da tarde, a Pat vomita a primeira vez e começa a queixar-se de dores de garganta motivadas pela tosse.
Falo com a mãe que fala com a pediatra. Foi o início de várias consultas telefónicas. A pediatra pergunta se o nariz corre. Não, nada se passa aí.
– Nesse caso - diz – os sintomas estão muito próximos de H1N1, fiquem em casa, anti-piréticos de 4 em 4 horas e vamos acompanhando isso.
Por esta altura, finalmente percebo que não devo ir trabalhar na segunda.
Dia 2 - Segunda- feira
PÂNICO
A noite foi péssima. Nem eu nem ela dormimos nada. Não só ardia em febre (sempre por volta dos 39º) como tossia e se queixava das dores que tossir lhe causava.
Pela manhã constato de novo que, aconteça o que acontecer, no máximo às 8 da manhã a Pat salta da cama. Mas estava murchinha, com os olhos encovados. Desde domingo à noite que recusa a comida e só a ‘engano’ com bolachinhas e chá preto super adoçado.
Pela falta de melhoras e mesmo agravamento, a mãe recorre de novo à pediatra. De novo nos indica estar com grande dose de certeza perante a H1N1, mas recomenda que não saíamos de casa (sobretudo, que não vamos ao consultório), excepto se quisermos ir fazr a análise, mas que para ela era indiferente nesta fase. Recomenda um xarope para aliviar a tosse que continua e continuar como até aqui.
Por esta altura começo a achar q ela não nos quer é lá no consultório. Mas tendo em conta que a Pat pode ser fonte de contágio, nem sequer me choca (muito).
É então que abro o frigorífico e constato que as provisões que um gajo que vive sozinho tem em casa, podem durar muito qd na melhor das hipóteses jantamos em casa, mas são ridiculamente insuficientes para 2 pessoas em casa full time. Do mesmo modo, os antipiréticos que tinha comprado há 6 meses e estavam quase cheios, estão a chegar ao fim.
Aceito a oferta da ex de nos trazer medicamentos e mantimentos.
À noite, para além de mais uns vómitos da Pat, eu começo a ter dores no corpo, respondendo assim à minha própria questão de quanto tempo eu me aguentaria sem contágio.
Dia 3 - Terça-feira
AFINAL ISTO PASSA
Esta noite foi menos má. Pelo menos para a Pat. Começou a descer a temperatura e a tosse reduziu imenso.
Já eu, para além de imensas dores no corpo e cabeça, estava com uma terrivelmente irritante tosse seca, que antes do fim da manhã já me causava dores na garganta.
Mas as boas notícias são que a Pat tem muito menos tosse e a febre desceu gradualmente ao longo do dia. À noite estava sem febre e já tinha outro ar, ainda que continuasse sem comer nada de jeito.
Ao longo do dia tornou-se também evidente que eu iria ter que recorrer aos mesmos medicamentos que ela; a técnica de fingir que não estava doente n estava a resultar.
Dia4 – Quarta-feira
O SEU DIPLOMA POR FAVOR
Em média esta manhã acordámos os dois assim assim. Na prática, a Pat acordou bem, sem febre ou dores e eu acordei mal. Bastante pior que ontem. Febre, dores mais intensas no corpo todo, com especial incidência na cabeça e espirros.
Se por um lado ter a Pat bem descansou toda a gente, por outro lado a experiência de estar fechado em casa a cuidar de uma criança quando mal nos conseguimos mexer, não é das mais fáceis.
Mas o dia de hoje teve experiências divertidas. Hoje começou a passar a notícia de que o RC está em casa com Gripe A. Isto suscitou alguns telefonemas e várias conversas no MSN. Acabei por constatar uma coisa. Toda a gente se recusa a acreditar que possas ter Gripe A a não ser que tenhas a análise positiva na mão. É como se fosse mais importante que o certificado de habilitações.
Um gajo concorre a um emprego de Economista, Gestor, Engenheiro Civil e ninguém quer saber do teu certificado de habilitações. Acreditam. Mas c a Gripe A, não, nada disso, meu menino. Tens o quê, Gripe A? Mas tens as análieses? Ah... então não é!
Se fosse uma coisa importante eu tinha ficado deprimido, juro. Assim, o que mais me aborreceu foram os arrepios de frio, a febre alta e as dores de corpo.
Thursday, July 09, 2009
Atom-Bunker Mobile
Richard Corr estava de férias na Alemanha rural com os amigos da faculdade. Já há 13 anos que regularmente iam uma semana para um destino estranho - sempre diferente - escolhido pelo método do destino com menos votos, numa votação que faziam a 31 de Dezembro de cada ano, no Pub local.
Neste ano calhou a Alemanha profunda, em Urach, uma pequena vila onde nada acontecia, o tempo passava devagar e ninguém falava Inglês. Um requisito sempre auto-imposto nestas viagens. Tinham decidido alugar uma quinta e divertiam-se em festas e passeios de jipe pelos montes circundantes.
Naquele dia, Richard estava com Norm na beira da estrada a recolher lenha para mais um churrasco épico, quando um som rouco e descompassado de um grande camião em esforço os fez erquer a vista; Richard reconheceu imediatamente um Opel Blitz de 1944, utilizado na segunda guerra mundial pelo exército Nazi. Como apreciador de clássicos, ergue-se e observou melhor. Era um modelo militar, completamente restaurado, com a insígnia nazi e que transportava na caixa de carga uma espécie de contentor com pequenas janelas corridas junto ao tecto. Em caracteres brancos pintados no verde militar, dizia: Atom-Bunker Mobile. Bunker Atómico Móvel.
Richard ficou fascinado. Não só não fazia ideia da existência de um tal coisa na segunda guerra mundial, como o facto de estar ali a passar lentamente ao seu lado o hipnotizou. Aproveitando a lentidão do camião, claramente em esforço pelo peso e a subida que enfrentava, Richard Corr correu atrás do camião e saltou para cima da caixa de carga. Abriu a porta do Bunker Atómico Móvel e entrou. No seu interior, apenas filas de bancos corridos, forrados a napa castanha, mas ao centro, uma cadeira erguida, como se de um trono se tratasse. Richard aproximou-se e leu as letras ‘Der Fuhrer’ gravadas no encosto.
Ainda não tinha digerido este momento, quando um solavanco e um rugido do motor o depertaram. O camião ganhou repentinamente uma energia e uma velocidade absolutamente inesperadas. Circulavam seguramente a mais de 90km/h, era completamente impossível sair do camião em andamento e, de dentro do Bunker Atómico Móvel, era também impossível o menor contacto com o condutor do mesmo.
Surpreendido por ser de repente ‘prisioneiro’ do Bunker Atómico Móvel, Richard Corr resignou-se a aproveitar a espera até que o camião tivesse que abrandar, para se sentar no cadeirão ao centro e olhar pelas estreitas janelas.
Pelas janelas desfilavam árvores, ocasionalmente casa ou animais... todo um mundo e Richard sentia-se um mero espectador, fechado no seu bunker (atómico móvel) e condenado a ver a vida a passar sem ter a menor capacidade de intervir ou decidir sobre o destino. Refém de uma decisão que parecia inocente, Richard começou a ficar preocupado. Não fazia ideia em que direcção seguia, não tinha telefone, documentos ou dinheiro consigo e – tal como tinham escolhido – estava numa sítio onde ninguém falava Inglês.
Finalmente, o camião abrandou. Quase parou, na verdade. Numa rua larga no interior de uma pequena aldeia e sem motivo aparente, mas Richard não se preocupou com isso e precipitou-se para a porta. Saltou e o Bunker Atómico Móvel arrancou de novo, como se tivesse apenas abrandado para que Richard Corr retomasse controlo da sua vida.
Controlo da sua vida? Essa mesma questão corria pelo cérebro de Richard; estar perdido sem fazer a menor ideia de onde, sem contacto, dinheiro, documentação e sem conhecer a língua, não era exactamente o controlo que Richard Corr gostaria de ter.
Enquanto caminhava pela estrada, sem saber bem onde esta o levava, Richard percebeu então a suprema ironia do acontecimento. Era a sua vida toda que estava fechada no Bunker Atómico Móvel. Era lá que ele residia, impotente para decidir ou influenciar a direcção e velocidade dos acontecimentos ao seu redor.
E foi nesse momento que abriu os olhos e olhando no rosto divertido de Norm e da sua amiga Katie, percebeu que não devia ter comido aqueles cogumelos ‘mágicos’ na noite anterior.
Neste ano calhou a Alemanha profunda, em Urach, uma pequena vila onde nada acontecia, o tempo passava devagar e ninguém falava Inglês. Um requisito sempre auto-imposto nestas viagens. Tinham decidido alugar uma quinta e divertiam-se em festas e passeios de jipe pelos montes circundantes.
Naquele dia, Richard estava com Norm na beira da estrada a recolher lenha para mais um churrasco épico, quando um som rouco e descompassado de um grande camião em esforço os fez erquer a vista; Richard reconheceu imediatamente um Opel Blitz de 1944, utilizado na segunda guerra mundial pelo exército Nazi. Como apreciador de clássicos, ergue-se e observou melhor. Era um modelo militar, completamente restaurado, com a insígnia nazi e que transportava na caixa de carga uma espécie de contentor com pequenas janelas corridas junto ao tecto. Em caracteres brancos pintados no verde militar, dizia: Atom-Bunker Mobile. Bunker Atómico Móvel.
Richard ficou fascinado. Não só não fazia ideia da existência de um tal coisa na segunda guerra mundial, como o facto de estar ali a passar lentamente ao seu lado o hipnotizou. Aproveitando a lentidão do camião, claramente em esforço pelo peso e a subida que enfrentava, Richard Corr correu atrás do camião e saltou para cima da caixa de carga. Abriu a porta do Bunker Atómico Móvel e entrou. No seu interior, apenas filas de bancos corridos, forrados a napa castanha, mas ao centro, uma cadeira erguida, como se de um trono se tratasse. Richard aproximou-se e leu as letras ‘Der Fuhrer’ gravadas no encosto.
Ainda não tinha digerido este momento, quando um solavanco e um rugido do motor o depertaram. O camião ganhou repentinamente uma energia e uma velocidade absolutamente inesperadas. Circulavam seguramente a mais de 90km/h, era completamente impossível sair do camião em andamento e, de dentro do Bunker Atómico Móvel, era também impossível o menor contacto com o condutor do mesmo.
Surpreendido por ser de repente ‘prisioneiro’ do Bunker Atómico Móvel, Richard Corr resignou-se a aproveitar a espera até que o camião tivesse que abrandar, para se sentar no cadeirão ao centro e olhar pelas estreitas janelas.
Pelas janelas desfilavam árvores, ocasionalmente casa ou animais... todo um mundo e Richard sentia-se um mero espectador, fechado no seu bunker (atómico móvel) e condenado a ver a vida a passar sem ter a menor capacidade de intervir ou decidir sobre o destino. Refém de uma decisão que parecia inocente, Richard começou a ficar preocupado. Não fazia ideia em que direcção seguia, não tinha telefone, documentos ou dinheiro consigo e – tal como tinham escolhido – estava numa sítio onde ninguém falava Inglês.
Finalmente, o camião abrandou. Quase parou, na verdade. Numa rua larga no interior de uma pequena aldeia e sem motivo aparente, mas Richard não se preocupou com isso e precipitou-se para a porta. Saltou e o Bunker Atómico Móvel arrancou de novo, como se tivesse apenas abrandado para que Richard Corr retomasse controlo da sua vida.
Controlo da sua vida? Essa mesma questão corria pelo cérebro de Richard; estar perdido sem fazer a menor ideia de onde, sem contacto, dinheiro, documentação e sem conhecer a língua, não era exactamente o controlo que Richard Corr gostaria de ter.
Enquanto caminhava pela estrada, sem saber bem onde esta o levava, Richard percebeu então a suprema ironia do acontecimento. Era a sua vida toda que estava fechada no Bunker Atómico Móvel. Era lá que ele residia, impotente para decidir ou influenciar a direcção e velocidade dos acontecimentos ao seu redor.
E foi nesse momento que abriu os olhos e olhando no rosto divertido de Norm e da sua amiga Katie, percebeu que não devia ter comido aqueles cogumelos ‘mágicos’ na noite anterior.
Friday, May 22, 2009
Há dias improváveis na vida de um gajo
Um gajo acorda cedo, muito cedo, vai para o ginásio como sempre ainda com 50% dos neurónios a dormir (cerca de 1, portanto). Quando sai da garagem e descobre que, para variar numa manhã de sexta, não há 2 carros e dezenas de Angolanos bêbados a impedir a saída, que o obrigam a buzinar debaixo da janela do vizinho do 1ºA, para poder passar.
Estaciona onde quer, a meio caminho entre o ginásio e a esplanada onde depois vai para o pequeno almoço. Nos balneários do ginásio não estão as habituais reuniões de cinquentões/sessentões a discutir o benfica e política. Subimos as escadas e vamos para a passadeira onde nos recebe um – Olá Bom dia! - todo sorriente, da morenaça gira que vimos todos os dias ali mas que nunca nos tinha dito palavra. Os restantes neurónios acordam para responder e compor o sorriso e pensa-se: Olha, n sei de onde veio isto, mas é ‘siiiimpático’.
Saímos, ainda com os músculos dormentes, sem força para nos levantarmos da cadeira onde caímos na esplanada e o empregado, pela primeira vez nos anos todos que lá vou, lembrou-se de levar os guardanapos à mesa, evitando-me o sofrimento de me levantar e ir buscá-los ao interior.
Na A5 há um acidente, mas por uma vez, o trânsito está parado 100m depois da nossa saída, o que significa que não há trânsito nenhum. Depois, lugar de estacionamento à porta. Entro no escritório e antes de me sentar já me estão a oferecer um Nespresso Cosi.
Estou precisamente a bebê-lo quando me dizem: - Esse blazer fica-te muito bem, a cor é fantástica!
Um gajo de repente começa a pensar que está a acontecer alguma coisa estranha. A minha primeira reacção foi tentar pedir socorro; é óbvio que fui raptado por extraterrestres e me ligaram a uma máquina como fornecedor de energia, enquanto me alimentam por via intravenosa e me enfiam pázadas de pensamentos felizes na cabeça, para me manter quieto. Cheguei a gritar pelo Neo, que viesse na Nabucodonosor e me desligasse esta coisa. Mas sem ser o olhar espantado dos que me rodeavam, não houve mudanças nem reacções.
Sentei-me e o trabalho estava lá, como o deixara ontem. Confortante! Mas, de novo estranheza, não houve emergências e tive tempo para escrever esta coisa.
Bem, é sexta –pensei – se calhar espero até que o euromilhões acerte nos números que escolhi para festejar. Depois lembrei-me que esta sexta ia também estar num jantar com 90 pessoas que conheço à 20 anos.
E foi nessa altura que pensei: Há dias improváveis na vida de um gajo!
Estaciona onde quer, a meio caminho entre o ginásio e a esplanada onde depois vai para o pequeno almoço. Nos balneários do ginásio não estão as habituais reuniões de cinquentões/sessentões a discutir o benfica e política. Subimos as escadas e vamos para a passadeira onde nos recebe um – Olá Bom dia! - todo sorriente, da morenaça gira que vimos todos os dias ali mas que nunca nos tinha dito palavra. Os restantes neurónios acordam para responder e compor o sorriso e pensa-se: Olha, n sei de onde veio isto, mas é ‘siiiimpático’.
Saímos, ainda com os músculos dormentes, sem força para nos levantarmos da cadeira onde caímos na esplanada e o empregado, pela primeira vez nos anos todos que lá vou, lembrou-se de levar os guardanapos à mesa, evitando-me o sofrimento de me levantar e ir buscá-los ao interior.
Na A5 há um acidente, mas por uma vez, o trânsito está parado 100m depois da nossa saída, o que significa que não há trânsito nenhum. Depois, lugar de estacionamento à porta. Entro no escritório e antes de me sentar já me estão a oferecer um Nespresso Cosi.
Estou precisamente a bebê-lo quando me dizem: - Esse blazer fica-te muito bem, a cor é fantástica!
Um gajo de repente começa a pensar que está a acontecer alguma coisa estranha. A minha primeira reacção foi tentar pedir socorro; é óbvio que fui raptado por extraterrestres e me ligaram a uma máquina como fornecedor de energia, enquanto me alimentam por via intravenosa e me enfiam pázadas de pensamentos felizes na cabeça, para me manter quieto. Cheguei a gritar pelo Neo, que viesse na Nabucodonosor e me desligasse esta coisa. Mas sem ser o olhar espantado dos que me rodeavam, não houve mudanças nem reacções.
Sentei-me e o trabalho estava lá, como o deixara ontem. Confortante! Mas, de novo estranheza, não houve emergências e tive tempo para escrever esta coisa.
Bem, é sexta –pensei – se calhar espero até que o euromilhões acerte nos números que escolhi para festejar. Depois lembrei-me que esta sexta ia também estar num jantar com 90 pessoas que conheço à 20 anos.
E foi nessa altura que pensei: Há dias improváveis na vida de um gajo!
Friday, March 27, 2009
Urgências Filosóficas
- Dr Duchamp, Dr Duchamp!! por favor venha já comigo, acabou de entrar um caso grave de Naturalismo.
- Eh lá... isso é melhor ser o Dr Caravaggio a ver, não?
- Não Dr, a sério, ele está ali na enfermaria a pintar um quadro horrível com a bancada dos instrumentos cirurgicos. È mesmo necessária uma intervenção rápida com aplicação de Dadaísmo.
-Pronto, vamos lá ver isso.
Dr Duchamp estava a ter um dia complicado no Banco de Urgências Filosóficas. A sala de espera cheia, o telefone que não parava de tocar e até o chato do Chefe do serviço de Anestesistas, o existencialista Dr Meike Slip, hoje andava particularmente irritante.
- Oh senhora enfermeira, por favor calem-me aquele tipo na maca 6, não se cansa de gritar.... “fora os neo-platónicos, viva os relativistas, fora os neo-platónicos, viva os relativistas”, ...por amor de Deus ou lá de quem mandar nisto, calem o homem!!
- Doutor, estou farta de tentar, mas não há quem o convença a calar-se.
- Oh mulher, ligue lá para cima, para a Unidade de Gregos Clássicos, veja se eles mandam um Sofista, o Dr Gorgia ou outro, pode ser que o convençam a calar-se.
- É para já, doutor.
De facto, as coisas não estavam a correr bem. Desde a eleição do Cardeal Ratzinger como Papa, que as urgências filosóficas não registavam uma enchente desta dimensão. Dr Duchamp dirigiu-se à máquina do café, bebeu um arábica puro e por fim lá foi atender a urgência Naturalística
- Então meu amigo, conte lá como é que foi isto.
- Eu estou bem, a sério que estou.
- Sim, claro, então como justifica este quadro com a maçã do meu almoço, que acabou de pintar?
- er...
- Você sabe o que eu costumo dizer?
- Não...
- Costumo dizer que há que negar todas as tradições sociais e artísticas. Baseio sempre a minha vida num anarquismo niilista e o slogan de Bakunin: "a destruição também é criação" é o meu modo de vida.
- Sim, e então?
- E então estou disposto a partir-lhe a moldura na cabeça a ver se consigo uma bela imagem desconstrutiva.
- Er... sabe, até me estou a sentir melhor, sôtor, sinto de repente um frémito cubista a subir-me pela espinha... melhor, melhor, estou a ver uma pintura a formar-se na minha mente... vejo uma mulher com 3 olhos a fritar um relógio derretido.
- Ora assim é que é falar!! Pode ir-se embora, vou já dar-lhe alta.
- Oh Dr Duchamp, você é brilhante – diz a enfermeira
- Eu sei, querida, eu sei. É do fósforo que tomo à noite!
- Eh lá... isso é melhor ser o Dr Caravaggio a ver, não?
- Não Dr, a sério, ele está ali na enfermaria a pintar um quadro horrível com a bancada dos instrumentos cirurgicos. È mesmo necessária uma intervenção rápida com aplicação de Dadaísmo.
-Pronto, vamos lá ver isso.
Dr Duchamp estava a ter um dia complicado no Banco de Urgências Filosóficas. A sala de espera cheia, o telefone que não parava de tocar e até o chato do Chefe do serviço de Anestesistas, o existencialista Dr Meike Slip, hoje andava particularmente irritante.
- Oh senhora enfermeira, por favor calem-me aquele tipo na maca 6, não se cansa de gritar.... “fora os neo-platónicos, viva os relativistas, fora os neo-platónicos, viva os relativistas”, ...por amor de Deus ou lá de quem mandar nisto, calem o homem!!
- Doutor, estou farta de tentar, mas não há quem o convença a calar-se.
- Oh mulher, ligue lá para cima, para a Unidade de Gregos Clássicos, veja se eles mandam um Sofista, o Dr Gorgia ou outro, pode ser que o convençam a calar-se.
- É para já, doutor.
De facto, as coisas não estavam a correr bem. Desde a eleição do Cardeal Ratzinger como Papa, que as urgências filosóficas não registavam uma enchente desta dimensão. Dr Duchamp dirigiu-se à máquina do café, bebeu um arábica puro e por fim lá foi atender a urgência Naturalística
- Então meu amigo, conte lá como é que foi isto.
- Eu estou bem, a sério que estou.
- Sim, claro, então como justifica este quadro com a maçã do meu almoço, que acabou de pintar?
- er...
- Você sabe o que eu costumo dizer?
- Não...
- Costumo dizer que há que negar todas as tradições sociais e artísticas. Baseio sempre a minha vida num anarquismo niilista e o slogan de Bakunin: "a destruição também é criação" é o meu modo de vida.
- Sim, e então?
- E então estou disposto a partir-lhe a moldura na cabeça a ver se consigo uma bela imagem desconstrutiva.
- Er... sabe, até me estou a sentir melhor, sôtor, sinto de repente um frémito cubista a subir-me pela espinha... melhor, melhor, estou a ver uma pintura a formar-se na minha mente... vejo uma mulher com 3 olhos a fritar um relógio derretido.
- Ora assim é que é falar!! Pode ir-se embora, vou já dar-lhe alta.
- Oh Dr Duchamp, você é brilhante – diz a enfermeira
- Eu sei, querida, eu sei. É do fósforo que tomo à noite!
Tuesday, March 10, 2009
A felicidade é
Um momento.
Não precisa ser mais que isso.
Um momento em que cheira a primavera e a brisa fresca da manhã traz já o toque meigo do sol. É conduzir de vidros todos abertos, a escutar aquela musica que te apetece mesmo.
É sentir o prazer de estar vivo naquele momento e a vontade de o saborear.
A felicidade são 5 minutos sem infelicidade. E é bom.
Não precisa ser mais que isso.
Um momento em que cheira a primavera e a brisa fresca da manhã traz já o toque meigo do sol. É conduzir de vidros todos abertos, a escutar aquela musica que te apetece mesmo.
É sentir o prazer de estar vivo naquele momento e a vontade de o saborear.
A felicidade são 5 minutos sem infelicidade. E é bom.
Friday, February 20, 2009
Frases premonitórias
Em 1867 Karl Marx escreveu:
"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"
Karl Marx, in Das Kapital, 1867
Durante a maior parte dos 142 anos desde que foi escrita, esta frase foi considerada apenas estranha e absurda mas hoje pode , efectivamente, ser considerada uma antecipação da realidade.
Entusiasmado por esta constatação, decidi investigar na minha biblioteca pessoal e devo confessar que descobri outras frases também claramente sub-valorizadas desde o tempo em que, sabiamente, foram escritas. Para vossa conveniência traduzi para Português, para que não percam pitada da capacidade de projecção dos autores.
Começo pela preocupação já demonstarada em 1966 relativamente à corrupção e abusos de poder, numa altura em que todos viviam o Flower Power e Alcochete ainda nem existia; atentem neste texto:
“A Cosa Nostra está estruturada como qualquer governos ou qualquer grande empresa (...). No topo está o capo di titti capi, ou seja, o chefão de todos os chefões. As reuniões são em sua casa e ele é o responsável pelo fornecimento de carnes frias e dos cubos de gelo. Uma falha neste domínio significa a morte imediata (a morte, por acaso, é uma das piores coisas que pode acontecer a um membro da Cosa Nostra e muitos preferem simplesmente pagar uma multa).”
Woody Allen, Getting Even - 1966
Mas já antes, outro conhecido autor havia referido o lado negro do dinheiro e a sua má influência na conduta humana:
“Destruímo-los de muitas maneiras. Primeiro economicamente. Ganham dinheiro. É apenas por acaso que um escritor ganha dinheiro, embora os bons livros sempre venham um dia a dar dinheiro. Então os nossos escritores, quando ganham dinheiro, elevam o seu nível de vida e estão tramados. Têm que escrever para sustentar a casa, a mulher e o resto e escrevem porcarias”
Ernest Hemingway, Green Hills of Africa, 1935
De um discernimento cortante é a visão que, já em 1956, Boris Vian tinha da voda moderna:
“Tiveram que se ir embora, jantar. Quando se trabalha no dia seguinte, não se pode passar toda a noite fora”
Boris Vian- L'Automme à Pekin - 1956
Para o fim deixo o mais surpreendente exercício de civismo e moral. Há mais de 200 anos, Sade, preocupado com a gravidez não desejada e a transmissão de DST’s – algo que não foi nada bem interpretado no seu tempo e lhe valeu a cadeia – ousou escrever:
“(...) aquilo que se sente quando este membro se introduz nos nossos cus é incontestavelmente preferível a todos os prazeres que possam resultar dessa introdução pela frente. Além do mais, quantos perigos não são evitados à mulher? A sua saúde corre menos riscos e não existe a menor possibilidade de gravidez.”
Marquis de Sade, 1795, La philosophie dans le Boudoir
Meus amigos, se isto não é visão do futuro, não sei o que será!
"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"
Karl Marx, in Das Kapital, 1867
Durante a maior parte dos 142 anos desde que foi escrita, esta frase foi considerada apenas estranha e absurda mas hoje pode , efectivamente, ser considerada uma antecipação da realidade.
Entusiasmado por esta constatação, decidi investigar na minha biblioteca pessoal e devo confessar que descobri outras frases também claramente sub-valorizadas desde o tempo em que, sabiamente, foram escritas. Para vossa conveniência traduzi para Português, para que não percam pitada da capacidade de projecção dos autores.
Começo pela preocupação já demonstarada em 1966 relativamente à corrupção e abusos de poder, numa altura em que todos viviam o Flower Power e Alcochete ainda nem existia; atentem neste texto:
“A Cosa Nostra está estruturada como qualquer governos ou qualquer grande empresa (...). No topo está o capo di titti capi, ou seja, o chefão de todos os chefões. As reuniões são em sua casa e ele é o responsável pelo fornecimento de carnes frias e dos cubos de gelo. Uma falha neste domínio significa a morte imediata (a morte, por acaso, é uma das piores coisas que pode acontecer a um membro da Cosa Nostra e muitos preferem simplesmente pagar uma multa).”
Woody Allen, Getting Even - 1966
Mas já antes, outro conhecido autor havia referido o lado negro do dinheiro e a sua má influência na conduta humana:
“Destruímo-los de muitas maneiras. Primeiro economicamente. Ganham dinheiro. É apenas por acaso que um escritor ganha dinheiro, embora os bons livros sempre venham um dia a dar dinheiro. Então os nossos escritores, quando ganham dinheiro, elevam o seu nível de vida e estão tramados. Têm que escrever para sustentar a casa, a mulher e o resto e escrevem porcarias”
Ernest Hemingway, Green Hills of Africa, 1935
De um discernimento cortante é a visão que, já em 1956, Boris Vian tinha da voda moderna:
“Tiveram que se ir embora, jantar. Quando se trabalha no dia seguinte, não se pode passar toda a noite fora”
Boris Vian- L'Automme à Pekin - 1956
Para o fim deixo o mais surpreendente exercício de civismo e moral. Há mais de 200 anos, Sade, preocupado com a gravidez não desejada e a transmissão de DST’s – algo que não foi nada bem interpretado no seu tempo e lhe valeu a cadeia – ousou escrever:
“(...) aquilo que se sente quando este membro se introduz nos nossos cus é incontestavelmente preferível a todos os prazeres que possam resultar dessa introdução pela frente. Além do mais, quantos perigos não são evitados à mulher? A sua saúde corre menos riscos e não existe a menor possibilidade de gravidez.”
Marquis de Sade, 1795, La philosophie dans le Boudoir
Meus amigos, se isto não é visão do futuro, não sei o que será!
Wednesday, February 11, 2009
Notícias de 2009
Desde o fim de ano que não pegava num teclado para escrever (hesitei e voltei atrás confesso; tinha escrito «pegava numa caneta» e depois percebi que isso actualmente é uma força de expressão e não uma realidade. Fiquei triste e pensei: ‘vou escrever um parêntesis maior que a frase, a explicar que as forças de expressão me oprimem e não gosto delas’, e assim foi).
Dito isto, começo mais ou menos onde vos deixei. Promessas de ano novo. Ao contrário de toda a gente que conheço, eu tenho cumprido escrupulosamente as minhas. Más línguas dizem mesmo que denotam um certo prazer sádico no seu cumprimento. A essas más linguas eu respondo: Fuck off! Tivessem escolhido melhor as vossas!
Mas compreendem certamente que o meu afastamento da escrita não se deve ao acaso ou à preguiça, mas antes a um conjunto de temas que têm afectado o início do nono ano do milénio (eu sei que é o oitavo, mas soa melhor e faz ‘pandan’ com 2009). Temas emotivos e empolgantes como o Caso Freeport, o desfecho do Caso Casa Pia, o desemprego - que afecta em especial os emigrantes brasileiros que treinam o Chelsea - a crise financeira internacional e, provavelmente motivado por esta última, o encerramento do quiosque no Jardim das Amoreiras.
No entanto, tão pouco foi qualquer um destes temas que me fez de novo escrever. Fui inapelavelmente impelido para o teclado pelo sugestivo título das notícias de hoje, de que os Bispos nacionais apelam a que se vote contra quem defende o casamento homossexual.
Gosto sempre de pessoas que apelam ao voto! Todos sabemos o problema que representa a elevada abstenção. O alheamento e desresponsabilização que isso representa e que não traz nada de bom. Mas poucos - muito poucos – têm a coragem de dizer assim alto e ainda tão longe das eleições, que é preciso ir votar. Um grande bem haja, senhores bispos. Mas vão ainda mais longe! A Igreja está genuinamente preocupada com os problemas financeiros com que nos deparamos. Preocupada em iniciativas que mitiguem o sofrimento das famílias e os ajudem a superar a crise.
Depois dos apelos à poupança nos preservativos, do incentivo ao recurso a clínicas de aborto clandestinas q - por operarem sem uma estrutura de custos fixos - podem levar mais barato, do exemplo que frequentemente dão em como sai menos dispendioso aliciar rapazinhos novos da Igreja do que pagar a profissionais da prática do amor, agora sugerem que não se desperdice dinheiro em festas sem sentido como o casamento, essa palermice que une duas pessoas pelo amor e isso. Eu só posso concordar. Nada como gente habituada a trabalhar para ter ordenado, a suar para poder pagar os anéis, para nos ajudar a superar o que realmente nos atrapalha a vida.
Certo que este não é um tema fácil. É fracturante, polémico e admito que muitos de vocês defendam o casamento. Eu não; sou contra! E isto, como em tudo na vida, não depende nada das opções sexuais de cada um. Mas eu tenho os Bispos do meu lado!
Dito isto, começo mais ou menos onde vos deixei. Promessas de ano novo. Ao contrário de toda a gente que conheço, eu tenho cumprido escrupulosamente as minhas. Más línguas dizem mesmo que denotam um certo prazer sádico no seu cumprimento. A essas más linguas eu respondo: Fuck off! Tivessem escolhido melhor as vossas!
Mas compreendem certamente que o meu afastamento da escrita não se deve ao acaso ou à preguiça, mas antes a um conjunto de temas que têm afectado o início do nono ano do milénio (eu sei que é o oitavo, mas soa melhor e faz ‘pandan’ com 2009). Temas emotivos e empolgantes como o Caso Freeport, o desfecho do Caso Casa Pia, o desemprego - que afecta em especial os emigrantes brasileiros que treinam o Chelsea - a crise financeira internacional e, provavelmente motivado por esta última, o encerramento do quiosque no Jardim das Amoreiras.
No entanto, tão pouco foi qualquer um destes temas que me fez de novo escrever. Fui inapelavelmente impelido para o teclado pelo sugestivo título das notícias de hoje, de que os Bispos nacionais apelam a que se vote contra quem defende o casamento homossexual.
Gosto sempre de pessoas que apelam ao voto! Todos sabemos o problema que representa a elevada abstenção. O alheamento e desresponsabilização que isso representa e que não traz nada de bom. Mas poucos - muito poucos – têm a coragem de dizer assim alto e ainda tão longe das eleições, que é preciso ir votar. Um grande bem haja, senhores bispos. Mas vão ainda mais longe! A Igreja está genuinamente preocupada com os problemas financeiros com que nos deparamos. Preocupada em iniciativas que mitiguem o sofrimento das famílias e os ajudem a superar a crise.
Depois dos apelos à poupança nos preservativos, do incentivo ao recurso a clínicas de aborto clandestinas q - por operarem sem uma estrutura de custos fixos - podem levar mais barato, do exemplo que frequentemente dão em como sai menos dispendioso aliciar rapazinhos novos da Igreja do que pagar a profissionais da prática do amor, agora sugerem que não se desperdice dinheiro em festas sem sentido como o casamento, essa palermice que une duas pessoas pelo amor e isso. Eu só posso concordar. Nada como gente habituada a trabalhar para ter ordenado, a suar para poder pagar os anéis, para nos ajudar a superar o que realmente nos atrapalha a vida.
Certo que este não é um tema fácil. É fracturante, polémico e admito que muitos de vocês defendam o casamento. Eu não; sou contra! E isto, como em tudo na vida, não depende nada das opções sexuais de cada um. Mas eu tenho os Bispos do meu lado!
Sunday, January 18, 2009
Não fiques com ele
Vais-te embora, podes levar o que pertence a ti
Vais-te embora, podes levar o que pertence a mim
Vai-te embora, leva o que te apetecer
Leva contigo o que te apetecer
Vai-te embora, mas deixa a minha razão de viver...
...Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele;
e até as contas no banco, a casa de campo, mas nãp fiques com ele...

...porque o comando é MEU!!
Disclaimer: Qualquer semelhança com uma música da Ágata ou com um anúncio ao provedor de cabo da PT, é mera coincidência.
Vais-te embora, podes levar o que pertence a mim
Vai-te embora, leva o que te apetecer
Leva contigo o que te apetecer
Vai-te embora, mas deixa a minha razão de viver...
...Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele;
e até as contas no banco, a casa de campo, mas nãp fiques com ele...

...porque o comando é MEU!!
Disclaimer: Qualquer semelhança com uma música da Ágata ou com um anúncio ao provedor de cabo da PT, é mera coincidência.
Tuesday, January 06, 2009
Lembram-se?
Por vezes recordo-me de quando tudo era fácil.
De quando um sim era um sim, um não era um não, um desejo era uma vontade e um brinquedo era a felicidade?
Lembram-se do maior medo ser o escuro? Da maior dor ser a palmada? E da felicidade que eram as incertezas da vida: quais os cromos da próxima carteirinha, qual a minha cor preferida, o que vou ser quando for grande?
Lembram-se de querer crescer?
De ter certezas? E perguntar ao pai as dúvidas?
Eu também me lembro! Lembro-me de querer estar onde estou hoje! E só não sei porque raio hoje queria estar outra vez lá.
De quando um sim era um sim, um não era um não, um desejo era uma vontade e um brinquedo era a felicidade?
Lembram-se do maior medo ser o escuro? Da maior dor ser a palmada? E da felicidade que eram as incertezas da vida: quais os cromos da próxima carteirinha, qual a minha cor preferida, o que vou ser quando for grande?
Lembram-se de querer crescer?
De ter certezas? E perguntar ao pai as dúvidas?
Eu também me lembro! Lembro-me de querer estar onde estou hoje! E só não sei porque raio hoje queria estar outra vez lá.
Sunday, January 04, 2009
Valsa com Bashir
Há poucos mas, felizmente, existem filmes que nos acertam como um soco no estômago. Que nos ficam na memória durante dias depois de sair do cinema. Há sons e frases que, mesmo em Hebraico, flutuam dias na nossa cabeça antes de escolherem um lugar para ficar.
Não sou crítico de cinema, sou só um apaixonado e um colaborador do Mooviz, mas este filme atingiu-me com uma força inesperada.
Talvez seja por estar a ler o excelente "A Guerra pela Civilização" de Robert Fisk, sobre o Médio-Oriente em geral, talvez seja simplemsmente porque tinha que me tocar.
Não percam "Waltz with Bashir" e comprem a banda sonora mal saiam da sala (já está no Itunes).
Não sou crítico de cinema, sou só um apaixonado e um colaborador do Mooviz, mas este filme atingiu-me com uma força inesperada.
Talvez seja por estar a ler o excelente "A Guerra pela Civilização" de Robert Fisk, sobre o Médio-Oriente em geral, talvez seja simplemsmente porque tinha que me tocar.
Não percam "Waltz with Bashir" e comprem a banda sonora mal saiam da sala (já está no Itunes).
Monday, December 22, 2008
Decisões de Ano Novo (que pretendo realmente cumprir)
É um cliché dos mais gastos, este das decisões de ano novo. E é também dos momentos em que mais se expressam boas intenções que nunca serão mais que isso mesmo, intenções, sem real vontade de passarem a acções.
Por tudo isso, odeio a estafada conversa dos balanços de fim de ano e das promessas de ano novo. Bull Shit. Balelas. Conversa para boi dormir. Tretas.
Sempre apreciei mais as acções e na verdade, as melhores nem são anunciadas com antecedência:
– Senhores jornalistas, chamei-vos aqui só para anunciar a minha decisão de este ano salvar das chamas um indivíduo que vai cair numa fogueira ao pé de mim, no dia 13 de Junho, às 22.46h, depois de ter bebido uns copitos a mais.
Não pega, pois não? Um gajo olha para o indivíduo que diz isto e começa logo a desejar-lhe que vá ter sexo com senhores africanos bem dotados em vez de nos fazer perder o nosso tempo. No entanto, todos nos deleitamos a ler como a Maia ou a Lili Caneças decidiram em 2009 fazer (mais) um lifting, ou deixarem de dar entrevistas a revistas cor-de-rosa para dedicarem mais tempo ao filho (se ainda se lembrarem do nome dele).
Com os balanços de fim de ano é o mesmo. Desde o jornal de referência ao pasquim mais vulgar, desde a TV nacional à televisão regional da Baixa da Banheira... todos os órgãos de comunicação social se dedicam a seleccionar os eventos e as imagens mais marcantes do ano. De um mero ponto de vista do entretenimento, acho interessante, mas... absolutamente inútil. Balanços fazem-se para tirar consequências. Como as avaliações de desempenho.
Proponho que passemos antes a fazer avaliações de desempenho do ano:
- Ora... 2008, não é?
- Sim senhor.
- Muito bem... sabe, em termos de competências comportamentais e valores, vou ter que lhe dar abaixo das expectativas.
- Mas... eu não estou a ver porquê.
- Desculpe, nem preciso de lhe recordar a palhaçada das eleições em Angola, ou aquilo no Zimbabwe, pois não? Por outro lado, Guantanamo, Iraque... enfim... não vejo aqui um real esforço da sua parte em mudar os valores e comportamentos essenciais para nós.
-...
- Bom... vamos continuar; competências técnicas. Eu aqui tenho sentimentos mistos, oh 2008. Por um lado a cena de se ter generalizado a vacina do papiloma humano foi bem esgalhado, mas quer dizer... mais um ano e ainda não há uma única alternativa viável ao petróleo.
- Desculpe lá, mas temos os carros eléctricos, eu ajudei bastante nisso.
- Pois....e a electricidade que usam para os carrgar vem das érvores, não é? Oh gajo, ainda usam petróleo ou carvão para a produzir. É esse o comportamento que critico. Lamento, mas vou mesmo ter que o despedir. E para o ano contratamos o 2009, está decidido.
- Porra pah, todos os anos a mesma coisa, não há um ano que consiga ficar em funções mais que um ano!
- Temos pena. Para a próxima faça formação, leia os manuais, qq coisa assim. Adeus.
Isto sim, daria indicadores preciosos ao ano que entra sobre o que fazer e o que se esperava dele. Agora quando escolhemos como imagens do ano o polícia a levar com um cocktail molotov na cabeça, ou o avião que se esborracha no chão em Barajas, que sinal estamos a dar ao ano que se inicía?
Estranho, não é? Mas é, provavelmente, um defeito meu, reconheço.
Mas, como aos restantes defeitos, tento bastante combatê-los. Por isso, este ano vou arriscar 10 decisões de ano novo, que, para ser diferente, tenciono mesmo cumprir:
1. Vou beber mais whisky velho;
2. Não vou cumprir os limites de velocidade;
3. Vou olhar para os rabos das mulheres em geral, sem pensar em nada de edificante durante esses instantes;
4. Vou continuar a tratar bem as pessoas que amo e com indiferença os restantes
5. Vou ser arrogante, mesquinho e invejoso sempre que isso me apetecer;
6. Vou ser generoso e carinhoso quando não houver alternativa.
7. Vou ver mails com gajas nuas no horário de trabalho, mas mantendo o ar sério e profissional
8. Vou acelerar em direcção às velhotas que atravessam fora da passadeira, só pelo prazer de as ver assustadas
9. Vou escrever estas merdas aos amigos e esperar que digam que gostam para ficar com o ego inchado
10. Não volto a tomar decisões de fim de ano (ou se tomar, não mais que 5 ou 6, que as restantes já custaram a escolher).
Por tudo isso, odeio a estafada conversa dos balanços de fim de ano e das promessas de ano novo. Bull Shit. Balelas. Conversa para boi dormir. Tretas.
Sempre apreciei mais as acções e na verdade, as melhores nem são anunciadas com antecedência:
– Senhores jornalistas, chamei-vos aqui só para anunciar a minha decisão de este ano salvar das chamas um indivíduo que vai cair numa fogueira ao pé de mim, no dia 13 de Junho, às 22.46h, depois de ter bebido uns copitos a mais.
Não pega, pois não? Um gajo olha para o indivíduo que diz isto e começa logo a desejar-lhe que vá ter sexo com senhores africanos bem dotados em vez de nos fazer perder o nosso tempo. No entanto, todos nos deleitamos a ler como a Maia ou a Lili Caneças decidiram em 2009 fazer (mais) um lifting, ou deixarem de dar entrevistas a revistas cor-de-rosa para dedicarem mais tempo ao filho (se ainda se lembrarem do nome dele).
Com os balanços de fim de ano é o mesmo. Desde o jornal de referência ao pasquim mais vulgar, desde a TV nacional à televisão regional da Baixa da Banheira... todos os órgãos de comunicação social se dedicam a seleccionar os eventos e as imagens mais marcantes do ano. De um mero ponto de vista do entretenimento, acho interessante, mas... absolutamente inútil. Balanços fazem-se para tirar consequências. Como as avaliações de desempenho.
Proponho que passemos antes a fazer avaliações de desempenho do ano:
- Ora... 2008, não é?
- Sim senhor.
- Muito bem... sabe, em termos de competências comportamentais e valores, vou ter que lhe dar abaixo das expectativas.
- Mas... eu não estou a ver porquê.
- Desculpe, nem preciso de lhe recordar a palhaçada das eleições em Angola, ou aquilo no Zimbabwe, pois não? Por outro lado, Guantanamo, Iraque... enfim... não vejo aqui um real esforço da sua parte em mudar os valores e comportamentos essenciais para nós.
-...
- Bom... vamos continuar; competências técnicas. Eu aqui tenho sentimentos mistos, oh 2008. Por um lado a cena de se ter generalizado a vacina do papiloma humano foi bem esgalhado, mas quer dizer... mais um ano e ainda não há uma única alternativa viável ao petróleo.
- Desculpe lá, mas temos os carros eléctricos, eu ajudei bastante nisso.
- Pois....e a electricidade que usam para os carrgar vem das érvores, não é? Oh gajo, ainda usam petróleo ou carvão para a produzir. É esse o comportamento que critico. Lamento, mas vou mesmo ter que o despedir. E para o ano contratamos o 2009, está decidido.
- Porra pah, todos os anos a mesma coisa, não há um ano que consiga ficar em funções mais que um ano!
- Temos pena. Para a próxima faça formação, leia os manuais, qq coisa assim. Adeus.
Isto sim, daria indicadores preciosos ao ano que entra sobre o que fazer e o que se esperava dele. Agora quando escolhemos como imagens do ano o polícia a levar com um cocktail molotov na cabeça, ou o avião que se esborracha no chão em Barajas, que sinal estamos a dar ao ano que se inicía?
Estranho, não é? Mas é, provavelmente, um defeito meu, reconheço.
Mas, como aos restantes defeitos, tento bastante combatê-los. Por isso, este ano vou arriscar 10 decisões de ano novo, que, para ser diferente, tenciono mesmo cumprir:
1. Vou beber mais whisky velho;
2. Não vou cumprir os limites de velocidade;
3. Vou olhar para os rabos das mulheres em geral, sem pensar em nada de edificante durante esses instantes;
4. Vou continuar a tratar bem as pessoas que amo e com indiferença os restantes
5. Vou ser arrogante, mesquinho e invejoso sempre que isso me apetecer;
6. Vou ser generoso e carinhoso quando não houver alternativa.
7. Vou ver mails com gajas nuas no horário de trabalho, mas mantendo o ar sério e profissional
8. Vou acelerar em direcção às velhotas que atravessam fora da passadeira, só pelo prazer de as ver assustadas
9. Vou escrever estas merdas aos amigos e esperar que digam que gostam para ficar com o ego inchado
10. Não volto a tomar decisões de fim de ano (ou se tomar, não mais que 5 ou 6, que as restantes já custaram a escolher).
Há dias Assim
Um gajo acorda e, depois do banho, vai enrolado na toalha para a cozinha. Enche a tijela dos cereais, senta-se no sofá edepois de procurar o comando da televisão por meia hora lá carrega no ‘on’ para ver as notícias da manhã.
Eu repito: carrega no ‘on’... isso, no ‘on’. Mais uma vez. E outra. FUCK! Mas que se passa com a merda da televisão?
Pouso os cereais, afasto o raio do LCD da parede, desligo cabos, ligo cabos, carrego em botões, chamo nomes à mãe do fabricante, irrito-me e desisto. Pifou. Raios... Eu tinha vontade de um LCD maior, mas este ainda nem tem um ano, não exageremos...
Sento-me e como os cereais já frios, enquanto penso na reparação do LCD, mais na conta da oficina que está para chegar, no que já gastei em prendas de natal e no facto de a mudança de emprego significar que só volto a receber um ordenado no fim de Dezembro. Fuck!
Chego à rua e não páro de espirrar. A garganta dói-me, estou quase sem falar. Faringite! Raios, ainda por cima está frio e chove.
A meio da manhã telefonam-me de Maputo:
- Está imenso calor, vamos agora para a esplanada almoçar, mas manda aqueles ficheiros até às vossas 12h, sim?
Sim, sim! Vão lá apanhar sol, oh caraças, que eu fico aqui enfiado no frio a trabalhar para vocês.
Mais amuos, telefonemas, reuniões... bolas já são quase 16h. Toca o telefone; olha, um amigpo de Angola, que fixe, deve estar com saudades.
- Estou Rui, tudo bem?
- Oi, tudo! Como estão as coisas por Angola?
-Óptimo, óptimo. Olha, tens o telefone da Roça das Mangueiras? Vamos marcar uma festa na praia e tu costumavas ter o contacto deles.
... (para dentro: Fossem mas era para o caralho, aqui tá frio e chuva e só se lembram de mim para isto?)
- Tenho o telefone deles, tenho. Eu mando-te por sms já.
- Fixe, mas n demores que vamos sair agora para ainda ir ali ao Caribe na Ilha apanhar um sol
- Grrrr
- Hum, o quê?
- Nada, nada, mando já.
Finalmente, acabo todos os ‘to-do’ do dia e preparo-me para sair. Ah merda! A TV avariada. Ligo o computador e procuro na net a assistência técnica. Mas quem me manda comprar marcar estranhas?
- Estou, TV Marcelo?
- Sim, diga por favor.
Explico o problema, pergunto quando odem lá ir buscar a dita
- Ora sôr Alberto Azinheira, deixe cá ver.... amanhã às 11h, pode ser?
- Às 11??, Não, nãopode ser, estou no escritório. Tem outra possibilidade?
- Bem... nesse caso só sábado de manhã, entre as 10 e as 13h.
(AAAARRRRGHH, vou ficar a manhã de casa fechado em casa à espera destes gajos...)
- Sim.... pode ser!
Bolas.... há dias que um gajo mais valia ser Banqueiro e pedir a liquidação do banco por dí vidas de 700 milhões.
Eu repito: carrega no ‘on’... isso, no ‘on’. Mais uma vez. E outra. FUCK! Mas que se passa com a merda da televisão?
Pouso os cereais, afasto o raio do LCD da parede, desligo cabos, ligo cabos, carrego em botões, chamo nomes à mãe do fabricante, irrito-me e desisto. Pifou. Raios... Eu tinha vontade de um LCD maior, mas este ainda nem tem um ano, não exageremos...
Sento-me e como os cereais já frios, enquanto penso na reparação do LCD, mais na conta da oficina que está para chegar, no que já gastei em prendas de natal e no facto de a mudança de emprego significar que só volto a receber um ordenado no fim de Dezembro. Fuck!
Chego à rua e não páro de espirrar. A garganta dói-me, estou quase sem falar. Faringite! Raios, ainda por cima está frio e chove.
A meio da manhã telefonam-me de Maputo:
- Está imenso calor, vamos agora para a esplanada almoçar, mas manda aqueles ficheiros até às vossas 12h, sim?
Sim, sim! Vão lá apanhar sol, oh caraças, que eu fico aqui enfiado no frio a trabalhar para vocês.
Mais amuos, telefonemas, reuniões... bolas já são quase 16h. Toca o telefone; olha, um amigpo de Angola, que fixe, deve estar com saudades.
- Estou Rui, tudo bem?
- Oi, tudo! Como estão as coisas por Angola?
-Óptimo, óptimo. Olha, tens o telefone da Roça das Mangueiras? Vamos marcar uma festa na praia e tu costumavas ter o contacto deles.
... (para dentro: Fossem mas era para o caralho, aqui tá frio e chuva e só se lembram de mim para isto?)
- Tenho o telefone deles, tenho. Eu mando-te por sms já.
- Fixe, mas n demores que vamos sair agora para ainda ir ali ao Caribe na Ilha apanhar um sol
- Grrrr
- Hum, o quê?
- Nada, nada, mando já.
Finalmente, acabo todos os ‘to-do’ do dia e preparo-me para sair. Ah merda! A TV avariada. Ligo o computador e procuro na net a assistência técnica. Mas quem me manda comprar marcar estranhas?
- Estou, TV Marcelo?
- Sim, diga por favor.
Explico o problema, pergunto quando odem lá ir buscar a dita
- Ora sôr Alberto Azinheira, deixe cá ver.... amanhã às 11h, pode ser?
- Às 11??, Não, nãopode ser, estou no escritório. Tem outra possibilidade?
- Bem... nesse caso só sábado de manhã, entre as 10 e as 13h.
(AAAARRRRGHH, vou ficar a manhã de casa fechado em casa à espera destes gajos...)
- Sim.... pode ser!
Bolas.... há dias que um gajo mais valia ser Banqueiro e pedir a liquidação do banco por dí vidas de 700 milhões.
Tuesday, January 15, 2008
Meet Bonga

Meet Bonga!
Bonga is a nice, cute, teddy bear who travels the world in RC's backpack. He is a cousin of Berti, the french teddy that shares the bed with Sylvie.
As he's always in my backpack, he has some pretty curious points of view about a lot of things. We've decides that, from now on, he'll be sharing them with you, as we get to know our little world.
Lhe aguarda só, ya?
Tuesday, December 11, 2007
Conto de Natal
Desde que, há 106 anos, Turlin começara a trabalhar com o Pai Natal, nunca voltou a passar o Inverno com a família, na sua cidade natal de Doni Heiland, a cidade de onde eram originários a maior parte dos duendes que trabalhavam no Pólo Norte, nas instalações da Santa’s Toy City Inc.
Turlin era o responsável do departamento de Investigação e Desenvolvimento de novos brinquedos e até aí sempre tinha adorado o seu trabalho. Tinha a possibilidade de dar largas à sua imaginação e criatividade e o Pai Natal sempre tivera plena confiança nos brinquedos e jogos que Turlin produzia, dando a sua aprovação incondicional.
No entanto, nestes últimos 3 anos Turlin começou a sentir a semente da desmotivação a germinar dentro de si. A longa noite do Inverno Ártico começava a custar cada vez mais a passar e os meses a fio enclausurado no laboratório ou no estirador já não lhe pareciam tão estimulantes.
Turlin era assim mesmo, um inconformado e segundo o prório Pai Natal, isso era o que fazia dele o melhor criador de brinquedos que a Santa’s Toy City já tivera. Mas não foi só nas qualidades criativas que Turlin fez escola; ele foi o primeiro duende a reclamar um aumento salarial e foi directamente responsável pela criação do STRAPON, o Sindicato dos Trabalhadores do Polo Norte.
Aliás, é relembrada como uma anedota corporativa, a monumental discussão que Turlin teve na sauna do health club da Santa’s Toy City, em que exigiu ao Pai Natal uma mota de neve com 2 lugares e 165cv sob ameaça de se demitir e fugir com a patente do Nenuco com fraldas.
Assim era ele, um duende refilão, mas acarinhado pelo Pai Natal pela sua competência, já que foi Turlin que esteve por trás de brinquedos que todos nós conhecemos e com os quais todos já brincámos, como o Monopólio, o Action Man, os preservativos com sabores ou os vibradores de 3 velocidades (mais marcha atrás).
Pois neste ano, as coisas não estavam a correr nada bem e o ambiente entre Turlin, os seus colegas e o Pai Natal andava um algo pesado. Tudo começou quando Malaguin, o duende director do departamento de Higiene e Segurança nos Brinquedos, foi fazer queixa ao Pai Natal sobre o novo brinquedo que Turlin estava a desenvolver. Segundo Turlin, era uma inocente linha de brinquedos a enviar às crianças Israelitas e Palestinianas, mas na verdade consistia num kit de DIY para preparar um colete de explosivos e vários bonecos articulados que os vestiam e se desmembravam com o deflagrar da explosão.
Uns dias depois, o Pai Natal convocou Turlin para o seu gabinete e tiveram uma conversa bastante séria.
- Isto não é aceitável, Turlin, onde andas tu com a cabeça? – Disse-lhe
- Não vejo qual é o problema, o ano passado levaste bonecos só com uma perna para as crianças de Angola e não te queixaste.
- Levei?! Hã??!!
- Sim, claro que levaste!
- Merda, por isso é que as cartas que recebi de Angola este ano eram todas a insultar-me a mim e à minha mãe. Isto não pode continuar. Acabei de decidir, de hoje em diante, nenhum produto teu pode sair sem a aprovação do Malaguin e minha.
- Mas...
- Nem mas nem meio mas, Turlin, podes brincar o que quiseres, mas com os brinquedos finais, os que enviamos, tens que ser cuidadoso. Sabes como são esquisitos os gajos das ONG’s e mais os caramelos da CE, especialmente agora lá com o Durão na Comissão, tu não me queres levar à falência, pois não?
- Não vejo o problema, com a massa que ganhas dos gajos da Coca Cola, bem podes deixar a merda dos brinquedos.
- Chega, está decidido e não quero mais conversa. Se estás com problemas, fala com a Mãe Natal, ela bem precisa de clientes, que anda sempre a queixar-se que a vida de uma psicoterapeuta no Pólo Norte é uma seca.
- Bah, tudo bem.
Foi assim que Turlin decidiu telefonar à Mãe Natal e marcar uma sessão de psicoterapia. Ao menos sempre se distraía, saía do atelier e deixava para trás o cheiro a bosta de rena, para aturar alguém menos chato que os parvos dos duendes do armazém, todo o dia a cantar Jingle Bells.
Tocou à porta da mansão de 3 pisos que o Pai Natal mandara construir com o dinheiro do patrocínio da Coca-Cola e esperou. Breves instantes depois a Natascha – a empregada Ucraniana do Pai Natal – abriu a porta e indicou-lhe a biblioteca.
A lenha crepitava na lareira e emprestava ao local uma luz amarelada e quente, bastante reconfortante. Turlin, ao invés de se sentar na chaise-longue de pele, decidiu dar uma vista de olhos pelos títulos dos livros na estante mais próxima. Estava precisamente a apreciar as fantásticas encadernações da colecção das obras completa do Marquês de Sade, quando entrou a Mãe Natal.
- Boa noite, Turlin.
Turlin respirou fundo antes de responder. A Mãe Natal era uma Finlandesa loira, com 1.85m, de olhos azuis como turquesas e com um corpo que justificava plenamente a razão do Pai Natal chegar sempre despenteado (e tarde) à fábrica.
- Boa noite, Mãe Natal. Como estás?
- Bem, obrigado, Turlin. Senta-te aqui ao pé de mim no sofá, não fiques aí tão longe nessa fria chaise-longue.
- Er... tá bem.
- Bom, sei que tens andado um pouco stressado. Queres contar-me o que sentes?
- Não é fácil, sinto-me cansado. Tenho 158 anos, estou a entrar na meia idade, sinto que estou a perder parte da minha vida. E depois, estes invernos longos aqui... pronto, confesso, desde os 120 anos que as minhas fantasias e carências sentimentais se têm tornado difíceis de suportar.
- Oh, meu querido. Eu percebo isso, sabes, a mim também me custa as 3 horas que o Pai Natal passa por dia na fábrica. Mas o que te fez mudar? Tu dantes, mesmo reinvindicativo, eras afável e sempre alegre. Agora andas... como direi?... resmungão, sabes?
- Eu sei, sinto isso. Mas passar o dia todo a apanhar com os rabetas dos duendes escoceses que vocês contrataram para o armazém, não é fácil. Sempre a cantar, com aqueles ridículos collants verdes justinhos. Sei lá, é tudo junto. Mas essencialmente acho que é aquela coisa da falta de sexo.
- Oh, não seja por isso, meu pequerrucho, senta aqui no meu colo.
- HÃ???
- Vá, o Pai Natal está no laboratório de brinquedos, só chega mais tarde.
- Mas, eu não sei...
- Vá vem cá, deita aqui a cara no meu peito.
- ....
Como esperavam todos, o inevitável sucedeu. O Pai Natal entrou em casa e decidiu ir dizer olá aos dois, pois sabia que ainda estariam na sessão de psicoterapia. Entra na biblioteca e depara-se com Turlin enroscado no peito da Mãe Natal. Surpreendido exclama:
- Mas o que raio estás a fazer, Turlin?
- Estamos na psicoterapia, querido – responde a Mãe Natal – apertando Turlin contra si.
- Ah bom, pensei que fosse mais uma das ideias parvas dele.
Turlin era o responsável do departamento de Investigação e Desenvolvimento de novos brinquedos e até aí sempre tinha adorado o seu trabalho. Tinha a possibilidade de dar largas à sua imaginação e criatividade e o Pai Natal sempre tivera plena confiança nos brinquedos e jogos que Turlin produzia, dando a sua aprovação incondicional.
No entanto, nestes últimos 3 anos Turlin começou a sentir a semente da desmotivação a germinar dentro de si. A longa noite do Inverno Ártico começava a custar cada vez mais a passar e os meses a fio enclausurado no laboratório ou no estirador já não lhe pareciam tão estimulantes.
Turlin era assim mesmo, um inconformado e segundo o prório Pai Natal, isso era o que fazia dele o melhor criador de brinquedos que a Santa’s Toy City já tivera. Mas não foi só nas qualidades criativas que Turlin fez escola; ele foi o primeiro duende a reclamar um aumento salarial e foi directamente responsável pela criação do STRAPON, o Sindicato dos Trabalhadores do Polo Norte.
Aliás, é relembrada como uma anedota corporativa, a monumental discussão que Turlin teve na sauna do health club da Santa’s Toy City, em que exigiu ao Pai Natal uma mota de neve com 2 lugares e 165cv sob ameaça de se demitir e fugir com a patente do Nenuco com fraldas.
Assim era ele, um duende refilão, mas acarinhado pelo Pai Natal pela sua competência, já que foi Turlin que esteve por trás de brinquedos que todos nós conhecemos e com os quais todos já brincámos, como o Monopólio, o Action Man, os preservativos com sabores ou os vibradores de 3 velocidades (mais marcha atrás).
Pois neste ano, as coisas não estavam a correr nada bem e o ambiente entre Turlin, os seus colegas e o Pai Natal andava um algo pesado. Tudo começou quando Malaguin, o duende director do departamento de Higiene e Segurança nos Brinquedos, foi fazer queixa ao Pai Natal sobre o novo brinquedo que Turlin estava a desenvolver. Segundo Turlin, era uma inocente linha de brinquedos a enviar às crianças Israelitas e Palestinianas, mas na verdade consistia num kit de DIY para preparar um colete de explosivos e vários bonecos articulados que os vestiam e se desmembravam com o deflagrar da explosão.
Uns dias depois, o Pai Natal convocou Turlin para o seu gabinete e tiveram uma conversa bastante séria.
- Isto não é aceitável, Turlin, onde andas tu com a cabeça? – Disse-lhe
- Não vejo qual é o problema, o ano passado levaste bonecos só com uma perna para as crianças de Angola e não te queixaste.
- Levei?! Hã??!!
- Sim, claro que levaste!
- Merda, por isso é que as cartas que recebi de Angola este ano eram todas a insultar-me a mim e à minha mãe. Isto não pode continuar. Acabei de decidir, de hoje em diante, nenhum produto teu pode sair sem a aprovação do Malaguin e minha.
- Mas...
- Nem mas nem meio mas, Turlin, podes brincar o que quiseres, mas com os brinquedos finais, os que enviamos, tens que ser cuidadoso. Sabes como são esquisitos os gajos das ONG’s e mais os caramelos da CE, especialmente agora lá com o Durão na Comissão, tu não me queres levar à falência, pois não?
- Não vejo o problema, com a massa que ganhas dos gajos da Coca Cola, bem podes deixar a merda dos brinquedos.
- Chega, está decidido e não quero mais conversa. Se estás com problemas, fala com a Mãe Natal, ela bem precisa de clientes, que anda sempre a queixar-se que a vida de uma psicoterapeuta no Pólo Norte é uma seca.
- Bah, tudo bem.
Foi assim que Turlin decidiu telefonar à Mãe Natal e marcar uma sessão de psicoterapia. Ao menos sempre se distraía, saía do atelier e deixava para trás o cheiro a bosta de rena, para aturar alguém menos chato que os parvos dos duendes do armazém, todo o dia a cantar Jingle Bells.
Tocou à porta da mansão de 3 pisos que o Pai Natal mandara construir com o dinheiro do patrocínio da Coca-Cola e esperou. Breves instantes depois a Natascha – a empregada Ucraniana do Pai Natal – abriu a porta e indicou-lhe a biblioteca.
A lenha crepitava na lareira e emprestava ao local uma luz amarelada e quente, bastante reconfortante. Turlin, ao invés de se sentar na chaise-longue de pele, decidiu dar uma vista de olhos pelos títulos dos livros na estante mais próxima. Estava precisamente a apreciar as fantásticas encadernações da colecção das obras completa do Marquês de Sade, quando entrou a Mãe Natal.
- Boa noite, Turlin.
Turlin respirou fundo antes de responder. A Mãe Natal era uma Finlandesa loira, com 1.85m, de olhos azuis como turquesas e com um corpo que justificava plenamente a razão do Pai Natal chegar sempre despenteado (e tarde) à fábrica.
- Boa noite, Mãe Natal. Como estás?
- Bem, obrigado, Turlin. Senta-te aqui ao pé de mim no sofá, não fiques aí tão longe nessa fria chaise-longue.
- Er... tá bem.
- Bom, sei que tens andado um pouco stressado. Queres contar-me o que sentes?
- Não é fácil, sinto-me cansado. Tenho 158 anos, estou a entrar na meia idade, sinto que estou a perder parte da minha vida. E depois, estes invernos longos aqui... pronto, confesso, desde os 120 anos que as minhas fantasias e carências sentimentais se têm tornado difíceis de suportar.
- Oh, meu querido. Eu percebo isso, sabes, a mim também me custa as 3 horas que o Pai Natal passa por dia na fábrica. Mas o que te fez mudar? Tu dantes, mesmo reinvindicativo, eras afável e sempre alegre. Agora andas... como direi?... resmungão, sabes?
- Eu sei, sinto isso. Mas passar o dia todo a apanhar com os rabetas dos duendes escoceses que vocês contrataram para o armazém, não é fácil. Sempre a cantar, com aqueles ridículos collants verdes justinhos. Sei lá, é tudo junto. Mas essencialmente acho que é aquela coisa da falta de sexo.
- Oh, não seja por isso, meu pequerrucho, senta aqui no meu colo.
- HÃ???
- Vá, o Pai Natal está no laboratório de brinquedos, só chega mais tarde.
- Mas, eu não sei...
- Vá vem cá, deita aqui a cara no meu peito.
- ....
Como esperavam todos, o inevitável sucedeu. O Pai Natal entrou em casa e decidiu ir dizer olá aos dois, pois sabia que ainda estariam na sessão de psicoterapia. Entra na biblioteca e depara-se com Turlin enroscado no peito da Mãe Natal. Surpreendido exclama:
- Mas o que raio estás a fazer, Turlin?
- Estamos na psicoterapia, querido – responde a Mãe Natal – apertando Turlin contra si.
- Ah bom, pensei que fosse mais uma das ideias parvas dele.
Thursday, November 29, 2007
O livro mais esperado
Estava eu hoje aqui no lóbi do Hotel Trópico a folhear uma revista ao pequeno almoço e de repente vejo esta preciosidade.

Caraças, será que depois disto vou conseguir comprar o mais recente livro, qd regressar a Lisboa?

Caraças, será que depois disto vou conseguir comprar o mais recente livro, qd regressar a Lisboa?
Monday, November 26, 2007
My smile
Hoje acordei e tinha um sorriso.
Estava nos meus lábios e brilhava-me nos olhos.
Hoje, a confusão da cidade que não pára parece-me uma doce dança e o seu som forte, uma quente canção.
Quente como o sol que sorri – também ele – e que empresta este toque de luz brilhante à cidade, que se engalanou de cores alegres.
Tudo isto para mim e para o meu sorriso. Para me dizer que me compreende e sorri comigo.
Embora seja uma sensação estranha e difícil de ‘realizar’, acho que se chama felicidade. Tomara que não parta de novo.
Estava nos meus lábios e brilhava-me nos olhos.
Hoje, a confusão da cidade que não pára parece-me uma doce dança e o seu som forte, uma quente canção.
Quente como o sol que sorri – também ele – e que empresta este toque de luz brilhante à cidade, que se engalanou de cores alegres.
Tudo isto para mim e para o meu sorriso. Para me dizer que me compreende e sorri comigo.
Embora seja uma sensação estranha e difícil de ‘realizar’, acho que se chama felicidade. Tomara que não parta de novo.
Thursday, November 01, 2007
De vez?
Estou há muito tempo sem escrever. A todos os que me perguntam, vou tentando desculpar-me com o tempo ou o trabalho. Na verdade, não sendo isso mentira, há outras razões bem mais profundas para a ausência de escrita.
Desde que me separei, algures em 2004, entrei numa espécie de espiral depressiva, por vezes controlada e mesmo esquecida, mas outras vezes, de difícil fuga e verdadeiramente limitadora.
Angola acabou por se revelar – embora, honestamente, eu não o esperasse – uma forma de sair do turbilhão de emoções que teimavam em me manter infeliz.
Com o tempo, a rede de relações que criei em Angola tornou-se mais forte. A Ana, especialmente, mas para além dela e depois dela, muitas outras pessoas perceberam o quanto eu precisava delas e souberam estar lá, mesmo sem eu pedir.
Descobri que o ambiente humano é diferente, em África. Não só entre os expatriados, que partilham esta distância que nos torna mais próximos, mas também o calor e alegria do povo Angolano se tornou um bálsamo difícil de dispensar.
Descobri que aqui posso, de facto, ajudar outras pessoas; não só profissionalmente, mas também na vida, há aqui pessoas muito necessitadas e descobri que parte da minha felicidade passa por trazer felicidade aos outros. Sem os cinismos e competitividade fútil de Lisboa, em que mais um punhado de Euros parecem ser um fim que justifica qualquer meio.
Aos poucos, o sofrimento que sentia ao partir de Lisboa para Luanda, inverteu-se e hoje, custa-me tremendamente mais deixar a minha vida em Angola para regressar em Lisboa. Filha à parte, sinto-me cada vez menos ligado a Lisboa; não à cidade, que amo de paixão, mas à vida e sociedade.
A partir do momento que aceitei estes sentimentos, ficou evidente que, para ser feliz, tinha que fazer alguma coisa.
A decisão foi tudo menos fácil. Mas um grupo de pessoas excelentes e muitas horas de psicoterapia, acabaram por me deixar uma única via aceitável. Decidi assim esta semana, que pretendia que o meu futuro passasse por África.
Assumi que pretendo – com o actual ou outro empregador – trabalhar em África e procurar encontrar-me aqui. Não sei se por muitos anos, se por poucos. Já vivi demais para ainda acreditar que se podem ter essas certezas, mas sei que neste momento, é em Angola que quero estar.
Ter conhecido a Sylvie, ainda mais viajada que eu, fez-me perceber que não era um sentimento contra-natura, esta coisa de querer deixar a ‘civilização’ e sentirmo-nos felizes num outro sítio que maior parte dos nossos amigos considera inabitável.
Se calhar, precisava também destes novos amigos.
A todos os que me ajudaram neste percurso interior, o meu mais profundo obrigado. Vocês sabem quem são!
Desde que me separei, algures em 2004, entrei numa espécie de espiral depressiva, por vezes controlada e mesmo esquecida, mas outras vezes, de difícil fuga e verdadeiramente limitadora.
Angola acabou por se revelar – embora, honestamente, eu não o esperasse – uma forma de sair do turbilhão de emoções que teimavam em me manter infeliz.
Com o tempo, a rede de relações que criei em Angola tornou-se mais forte. A Ana, especialmente, mas para além dela e depois dela, muitas outras pessoas perceberam o quanto eu precisava delas e souberam estar lá, mesmo sem eu pedir.
Descobri que o ambiente humano é diferente, em África. Não só entre os expatriados, que partilham esta distância que nos torna mais próximos, mas também o calor e alegria do povo Angolano se tornou um bálsamo difícil de dispensar.
Descobri que aqui posso, de facto, ajudar outras pessoas; não só profissionalmente, mas também na vida, há aqui pessoas muito necessitadas e descobri que parte da minha felicidade passa por trazer felicidade aos outros. Sem os cinismos e competitividade fútil de Lisboa, em que mais um punhado de Euros parecem ser um fim que justifica qualquer meio.
Aos poucos, o sofrimento que sentia ao partir de Lisboa para Luanda, inverteu-se e hoje, custa-me tremendamente mais deixar a minha vida em Angola para regressar em Lisboa. Filha à parte, sinto-me cada vez menos ligado a Lisboa; não à cidade, que amo de paixão, mas à vida e sociedade.
A partir do momento que aceitei estes sentimentos, ficou evidente que, para ser feliz, tinha que fazer alguma coisa.
A decisão foi tudo menos fácil. Mas um grupo de pessoas excelentes e muitas horas de psicoterapia, acabaram por me deixar uma única via aceitável. Decidi assim esta semana, que pretendia que o meu futuro passasse por África.
Assumi que pretendo – com o actual ou outro empregador – trabalhar em África e procurar encontrar-me aqui. Não sei se por muitos anos, se por poucos. Já vivi demais para ainda acreditar que se podem ter essas certezas, mas sei que neste momento, é em Angola que quero estar.
Ter conhecido a Sylvie, ainda mais viajada que eu, fez-me perceber que não era um sentimento contra-natura, esta coisa de querer deixar a ‘civilização’ e sentirmo-nos felizes num outro sítio que maior parte dos nossos amigos considera inabitável.
Se calhar, precisava também destes novos amigos.
A todos os que me ajudaram neste percurso interior, o meu mais profundo obrigado. Vocês sabem quem são!
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